Harley Fat Boy revela seus encantos

Quando a Fat Boy foi escalada para avaliação, confesso que não fiquei muito animado.

Nunca consegui entender que graça tantos veem nessa Harley-Davidson. Vá lá que está em produção há 24 anos, e esse tipo de tradição conta muito para os harleiros mais puristas. Além disso, ganhou (mais) fama quando foi pilotada pelo ator Arnold Schwarzenegger em um dos episódios da franquia "'Exterminador do futuro"'. E, convenhamos, é uma moto bonita mesmo.

Mas ainda assim é um modelo nada equipado, relativamente simples e desconfortável para a garupa e que, apesar da beleza, não chama assim tanta atenção. Diante disso tudo, o preço de R$ 54 mil não parece atraente — a irmã Heritage Classic, por exemplo, usa chassi quase igual, o mesmo motor, vem toda equipadinha (tem faróis auxiliares, para-brisa destacável, alforges e encosto para garupa) e custa R$ 56 mil.

Pois é, mas bastaram alguns bons trechos de estrada para eu começar a entender os fãs da Fat Boy.

Peguei a versão Special, na qual predominam os tons foscos. Para quem não gosta do estilo, há a standard, que segue a receita de "'tudo cromado" e custa R$ 53 mil.

Visualmente a moto tem linhas milimetricamente bem resolvidas, misturando discrição com elegância. O emblema no tanque é lindo, a cabeça de touro (capa cromada que cobre a parte de cima das bengalas) é clássica, o farolzão é imponente e as rodas fechadas, um charme. Tudo está no lugar.

Antes da chegar à estrada, peguei um daqueles engarrafamentos bíblicos do Rio. A moto até vai bem no trânsito: nem muito larga nem muito alta, tem alguma agilidade. Mas esquenta incrivelmente as pernas e cheguei a desligar o motor por uns minutos pois o calor estava insuportável. A dica é: evite os engarrafamentos.

Na estrada tudo muda, e a Fat Boy passa a fazer sentido. Quem diria que, ao levá-la para São Paulo, eu faria uma das melhores viagens de moto da minha vida.

O comportamento foi excelente. Nas retas da Via Dutra, estabilidade plena, sem reboladas ou sustos. Subir a Serra das Araras, com suas curvas abertas, foi diversão pura.

Tão 'na mão' quanto uma 125

Naturalmente não é uma moto para se andar com cabo torcido. Acima dos 120km/h, por exemplo, o vento incomoda bastante — não há proteção aerodinâmica. Mas se o piloto abrir o gás e aturar a turbulência, a Fat Boy vai bem além disso — e com inesperada segurança.

A avaliação nas curvas foi feita no sinuoso trajeto que liga a Via Dutra à cidade de São Luís do Paraitinga (SP), via Lagoinha. São cerca de 50km de curvas em pista simples e de mão dupla. Pobres pedaleiras... Arrastaram bastante. Mas a moto continuou obediente e grudada no asfalto o tempo todo.

Este bom comportamento é ajudado pelas suspensões relativamente rígidas, que comprometem um pouco do conforto em pisos ruins, mas mantém a frente e a traseira conversando na mesma língua. Os freios têm respostas honestas, apesar de borrachudos. E o ABS, ainda que evoluído em relação ao usado nas primeiras H-D, ainda trepida além do razoável.

A posição do piloto é excelente. O guidom, embora um pouco baixo, chega naturalmente às mãos, e o banco é anatômico e razoavelmente macio. As pedaleiras plataforma permitem pequenas mudanças de posição, o que minimiza o cansaço em longas distâncias. Uma garupa não tem a mesma sorte: seu banco é pequeno, estreito e fino.

A pilotagem só é dificultada pelos comandos, diferentes dos universais. Nas motos da marca, os piscas são acionados por botões no respectivo lado. Pisca-alerta? Aperte os dois ao mesmo tempo. Em praticamente todo o resto do mundo, os piscas são no mesmo botão, no punho esquerdo, e o alerta também é em um botão só, em qualquer lugar fácil.

E a buzina? Além de naturalmente baixa, tem uma capa que reduz ainda mais seu alcance e emite um "'fon-fon"' similar ao dos automóveis. No Brasil, a percepção geral é de "bi-bi" para buzinas de motos. Ou seja, nas H-D você buzina e ninguém percebe que há uma moto nas imediações (na estrada, caminhoneiros ou ônibus não responderam às minhas sinalizações sonoras). Custava trocar a peça?

O painel também não emociona muito. O velocímetro é até bonito, mas no mostrador digital há apenas hodômetros total e parcial e autonomia. À esquerda do tanque há um marcador de combustível com ponteirinho, mas confie mais na luzinha amarela da reserva. E fique de olho: assim como esta, as outras luzes-espia, na parte mais inferior do conjunto, são pequeninas e difíceis de ver sob claridade.

Depois das curvas, voltei à Via Dutra e segui para São Paulo. Viagem sempre segura, inclusive nas ultrapassagens. O motorzão TwinCam 96B tem muito torque em baixos giros, mas em quinta e sexta marcha (esta última, um overdrive) é quase sempre necessário cambiar para baixo para "encher". Fora isso, trabalha-se pouco e curte-se muito em cima dessa moto que, apesar do tamanho, nada tem de "barca". É tão na mão que parece mais uma 125 crescida.

A relação inicial com a Fat Boy, distante e fria, tornou-se uma agradável parceria de 650km, que me fez compreender porque há tantos harleiros seduzidos pelo modelo. Achei que ia ser apenas legal, mas foi excepcional.

Harley-Davidson Fat Boy

Origem: EUA (com montagem no Brasil)

Preço: R$ 54 mil

Motor: V2, 1.584cm³, refrigerado a ar, potência de 80cv (estimada) e 313kg

Tanque e consumo: 18,9 litros; 18,5km/l (medição — Motor Extra)

Fonte: extra.globo.com